segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

6.2 - Da Escola para a actividade profissional (carta aberta ao recém licenciado)*

Caro André,

Serás tratado de jovem arquitecto, tal como eu, ainda por muitos anos, provavelmente até chegarmos aos 40. É uma designação com a qual concordo e me sinto bem, pois a prática da arquitectura, no sentido clássico do termo, e as obras de maior fôlego, exigem ambas uma experiência da vida que só o tempo nos poderá oferecer. Este “estatuto” de jovem arquitecto é assim, na minha perspectiva, uma condição preciosa que não devemos desperdiçar. Podemos assumir desde já a responsabilidade de exercer a nossa “profissão”, mas sabemos igualmente que não estamos ainda suficientemente preparados para a exercer em plenitude, tal como a arquitectura nos foi ensinada, actividade para qual queremos dar obviamente a nossa melhor contribuição. Por isso não avances com maior rapidez do que a necessária, para ti, e aproveita se possível todos estes anos para desenvolver um espírito crítico sobre a arquitectura, tanto no próprio seio do projecto, como nas suas manifestações junto da sociedade que vivemos.
Com efeito, os licenciados em arquitectura estão aptos a desenvolver outras actividades para além das que habitualmente exercem. Essa aptidão advém, principalmente, de dois factores. Por um lado, da nossa ampla percepção das escalas onde o homem se movimenta, do desenho construtivo ao planeamento urbano, e por outro, do nosso raciocínio de síntese, o qual integra, como prova o acto projectual, informações de áreas tão diferenciadas como a geografia, a engenharia, a história ou a economia. Emerge portanto a necessidade de tomarmos consciência que ser arquitecto, hoje em Portugal, pode significar muito mais do que ser o profissional que realiza projectos de arquitectura. E é aqui, sem dúvida, onde se colocam os problemas do ensino e da sua adaptação à realidade laboral existente.
Mesmo considerando um alargamento progressivo das áreas de actividade profissional, onde os arquitectos poderão intervir, parece-me que há outras formas de oferecer unidade a um curso de arquitectura sem ser pelo esmagamento dos conhecimentos parciais, em favor da acumulação de tempos na disciplina de Projecto. Isto porque também não é desejável a especialização ao nível da licenciatura (até pelas recentes orientações comunitárias) e muito menos existirem arquitectos da construção, da informática ou do planeamento. Mantém portanto a confiança no teu curso de arquitectura de espectro generalista e então, só depois, um espírito crítico e as oportunidades poderão fazer a diferença. Descobre o gosto pela investigação, apostando na diversidade, sem preconceitos ou juízos de valor. Encontra novos horizontes profissionais e assim darás uma contribuição inestimável para melhorar o ensino da arquitectura.
Os meus melhores cumprimentos,
Rui Florentino


* excerto de uma "carta do leitor", publicada no número 202 do Jornal Arquitectos da Ordem dos Arquitectos (2001).

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